terça-feira, 20 de setembro de 2011

Memórias de Subsolo

Trechos do livro "Memórias de subsolo" (Fiódor Dostoiévski)

"Não vos parece que eu, agora, me arrependo de algo perante vós, que vos peço perdão?... Estou certo de que é esta a vossa impressão... Pois asseguro-vos que me é indiferente o fato de que assim vos pareça... Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo os meus dias em meu canto, incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso – que para nada serve – de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem".

“E tudo isso devido à mais fútil das causas, à qual, parece, quase nem valeria a pena referir-se: tudo precisamente porque o homem, seja ele quem for, sempre e em toda parte gostou de agir a seu bel-prazer e nunca segundo lhe ordenam a razão a o interesse; pode-se desejar ir contra a própria vantagem e, às vezes, decididamente se deve (isto já é uma idéia minha). Uma vontade que seja nossa, livre, um capricho nosso, ainda que dos mais absurdos, nossa própria imaginação, mesmo quando excitada até a loucura – tudo isto constitui aquela vantagem das vantagens que deixei de citar, que não se enquadra em nenhuma classificação, e devido à qual todos os sistemas e teorias se desmancham continuamente, com todos os diabos! E de onde concluíram todos esses sabichões que o homem precisa de não sei que vontade normal, virtuosa? Como foi que imaginaram que ele, obrigatoriamente, precisa de uma vontade sensata, vantajosa? O homem precisa unicamente de uma vontade independente, custe o que custar essa independência e leve aonde levar. Bem, o diabo sabe o que é essa vontade…”

A razão, meus senhores, é coisa boa, não há dúvida, mas razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer constitui a manifestação de toda a vida [...] E embora a nossa vida, nessa manifestação, resulte muitas vezes em algo bem ignóbil, é sempre a vida e não apenas a extração de uma raiz quadrada. [...] a natureza humana age em sua totalidade, com tudo o que nela existe de consciente e inconsciente, e, embora minta, continua vivendo.

[...] e eu escrevo unicamente para mim, e declaro de uma vez por todas que, embora escreva como se me dirigisse a leitores, faço-o apenas por exibição, pois assim me é mais fácil escrever. Trata-se de forma, unicamente de forma vazia, e eu nunca hei de ter leitores. Já declarei isto uma vez [...]

Fica ainda uma pergunta: para que, em suma, quero eu escrever? Se não é para um público, não se poderia recordar tudo mentalmente, sem lançar mão do papel? Assim é; mas, por escrito, isto sairá, de certo, mais solene. O papel tem algo que intimida, haverá mais severidade comigo mesmo, o estilo há de lucrar. Além disso, é possível que as anotações me tragam realmente um alívio.

"Mas não pensem que ele relembra isto por arrependimento. Não, ele se tortura por gostar de rir de si mesmo, por sentir-se humilhado - “o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado?”. Assim, admira-se por ser o que é, por ter escolhido o caminho que escolheu, por mais tortuoso e amedrontador que ele seja.

Ah! Senhores! É possível que eu me considere extremamente inteligente pela única razão de que, em toda a minha vida, nunca pude começar nem acabar fosse o que fosse. Não passo pois de um tagarela, de um tagarela inofensivo, de um impertinente como nós todos. Mas que fazer, senhores, se o destino de todo homem inteligente é tagarelar, isto é, derramar água em uma peneira?"

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Clarice Lispector

Uma dose de Clarice Lispector:

Não me dêem fórmulas certas,
por que eu não espero acertar sempre.

Não me mostrem o que esperam de mim,
por que vou seguir meu coração.

Não me façam ser quem não sou.

Não me convidem a ser igual,
por que sinceramente sou diferente.

Não sei amar pela metade.
Não sei viver de mentira.
Não sei voar de pés no chão.

Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.

Não se preocupe em entender,
viver ultrapassa qualquer entendimento.

Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR.

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Definitivo

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional...

(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 10 de setembro de 2011

Sinto sua falta

Eu sinto sua falta, de verdade.
Eu sinto falta de curtir a vida,
mas com você ao meu lado.

De tudo que você já me proporcionou,
daquelas noites e dias mágicos,
da alegria que tomava conta de mim ao te ver.

Eu sinto falta de feriados extravagantes por razão nenhuma.
Eu sinto falta de não ter que me preocupar com o que está por vir,
por que você estava lá por mim.

Eu sinto falta da alegria que sentia
por saber que você pertencia a mim..
Dinheiroooo aonde você foi????

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos

Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo

Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo

Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...

É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta

E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.


Vinícius de Moraes

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Quando você não está por perto (Barão Vermelho)

Quando você não está por perto
(Barão Vermelho)

Eu quero ficar nu diante dos seus olhos
Falar bem perto do seu ouvido
Decifrar tua alma e os gemidos
Temos tempo pra viver


Quero descobrir o amor de novo
Encontrar em alguém o que eu procuro
Livrar o amor do escuro
E destruir o muro
Que cerca meu coração
Vai ser bom pra mim
Ficar só, é tão ruim
Vai ser bom pra mim
Ficar só, é tão ruim

A vida me sorriu, permitiu você nascer
Estrela pra dar sorte
Por tudo o que a gente fez
É pura tua luz, teu rosto, teu olhar

Quando voce está longe
A mim só resta lembrar
Quando você não está por perto
Meu mundo é um deserto no fim

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Não é nova, mas é sempre bom lembrar

Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
quando nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
amei e fui amado, mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
"quebrei a cara" muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só pra escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade e
tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo)!

Mas vivi!

E ainda Vivo!

Não passo pela vida...
E você também não deveria passar.

Viva!

"Bom mesmo é ir a luta com determinação,
abraçar a vida e viver com paixão,
perder com classe e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve e
a vida é MUITO para ser insignificante."

(Chaplin)