sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Desejo a você...

Desejo a você...
Desejo, primeiro, que você ame,
e que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo também que tenha amigos, 
ainda que maus e inconseqüentes.
Que sejam corajosos e fiéis,
e que pelo menos num deles
você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
desejo ainda que você tenha adversários.
Nem muitos, nem poucos,
mas na medida exata para que, algumas vezes,
você se interpele a respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo, depois, que você seja útil,
mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
quando não restar mais nada,
essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda, que você seja tolerante,
não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
mas com os que erram muito e irremediavelmente,
e que fazendo bom uso dessa tolerância,
você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você,
sendo jovem, não amadureça depressa demais,
e que, sendo maduro, não insista em rejuvenescer,
e que, sendo velho, não se entregue ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor,
e é preciso deixar que aconteçam no tempo certo.

Desejo, por sinal, que você seja triste,
não o ano todo, mas apenas um dia.
E que nesse dia descubra que o riso diário é bom,
o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,
com a máxima urgência,
acima e a respeito de tudo,
que existem oprimidos e infelizes,
e que estão à sua volta.

Desejo, ainda,
que você afague um gato, alimente um cuco
e ouça o João-de-barro erguer triunfante o seu canto matinal
porque, assim, você se sentirá bem por pouca coisa.
Desejo também que você plante uma semente,
por mais minúscula que seja,
e acompanhe o seu crescimento,
para que saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim,
que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano coloque um
pouco dele na sua frente e diga "isso é meu",
só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
por ele e por você, mas que, se morrer,
você possa chorar sem se lamentar
e sofrer sem se culpar.

Desejo, por fim, que você, 
sendo homem, tenha uma boa mulher,
e que sendo mulher, tenha um bom homem
e que se amem hoje, amanhã
e nos dias seguintes,
e quando estiverem exaustos e sorridentes,
ainda haja amor para recomeçar."


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Memórias de Subsolo

Trechos do livro "Memórias de subsolo" (Fiódor Dostoiévski)

"Não vos parece que eu, agora, me arrependo de algo perante vós, que vos peço perdão?... Estou certo de que é esta a vossa impressão... Pois asseguro-vos que me é indiferente o fato de que assim vos pareça... Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo os meus dias em meu canto, incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso – que para nada serve – de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem".

“E tudo isso devido à mais fútil das causas, à qual, parece, quase nem valeria a pena referir-se: tudo precisamente porque o homem, seja ele quem for, sempre e em toda parte gostou de agir a seu bel-prazer e nunca segundo lhe ordenam a razão a o interesse; pode-se desejar ir contra a própria vantagem e, às vezes, decididamente se deve (isto já é uma idéia minha). Uma vontade que seja nossa, livre, um capricho nosso, ainda que dos mais absurdos, nossa própria imaginação, mesmo quando excitada até a loucura – tudo isto constitui aquela vantagem das vantagens que deixei de citar, que não se enquadra em nenhuma classificação, e devido à qual todos os sistemas e teorias se desmancham continuamente, com todos os diabos! E de onde concluíram todos esses sabichões que o homem precisa de não sei que vontade normal, virtuosa? Como foi que imaginaram que ele, obrigatoriamente, precisa de uma vontade sensata, vantajosa? O homem precisa unicamente de uma vontade independente, custe o que custar essa independência e leve aonde levar. Bem, o diabo sabe o que é essa vontade…”

A razão, meus senhores, é coisa boa, não há dúvida, mas razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer constitui a manifestação de toda a vida [...] E embora a nossa vida, nessa manifestação, resulte muitas vezes em algo bem ignóbil, é sempre a vida e não apenas a extração de uma raiz quadrada. [...] a natureza humana age em sua totalidade, com tudo o que nela existe de consciente e inconsciente, e, embora minta, continua vivendo.

[...] e eu escrevo unicamente para mim, e declaro de uma vez por todas que, embora escreva como se me dirigisse a leitores, faço-o apenas por exibição, pois assim me é mais fácil escrever. Trata-se de forma, unicamente de forma vazia, e eu nunca hei de ter leitores. Já declarei isto uma vez [...]

Fica ainda uma pergunta: para que, em suma, quero eu escrever? Se não é para um público, não se poderia recordar tudo mentalmente, sem lançar mão do papel? Assim é; mas, por escrito, isto sairá, de certo, mais solene. O papel tem algo que intimida, haverá mais severidade comigo mesmo, o estilo há de lucrar. Além disso, é possível que as anotações me tragam realmente um alívio.

"Mas não pensem que ele relembra isto por arrependimento. Não, ele se tortura por gostar de rir de si mesmo, por sentir-se humilhado - “o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado?”. Assim, admira-se por ser o que é, por ter escolhido o caminho que escolheu, por mais tortuoso e amedrontador que ele seja.

Ah! Senhores! É possível que eu me considere extremamente inteligente pela única razão de que, em toda a minha vida, nunca pude começar nem acabar fosse o que fosse. Não passo pois de um tagarela, de um tagarela inofensivo, de um impertinente como nós todos. Mas que fazer, senhores, se o destino de todo homem inteligente é tagarelar, isto é, derramar água em uma peneira?"

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Clarice Lispector

Uma dose de Clarice Lispector:

Não me dêem fórmulas certas,
por que eu não espero acertar sempre.

Não me mostrem o que esperam de mim,
por que vou seguir meu coração.

Não me façam ser quem não sou.

Não me convidem a ser igual,
por que sinceramente sou diferente.

Não sei amar pela metade.
Não sei viver de mentira.
Não sei voar de pés no chão.

Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.

Não se preocupe em entender,
viver ultrapassa qualquer entendimento.

Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR.

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Definitivo

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional...

(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 10 de setembro de 2011

Sinto sua falta

Eu sinto sua falta, de verdade.
Eu sinto falta de curtir a vida,
mas com você ao meu lado.

De tudo que você já me proporcionou,
daquelas noites e dias mágicos,
da alegria que tomava conta de mim ao te ver.

Eu sinto falta de feriados extravagantes por razão nenhuma.
Eu sinto falta de não ter que me preocupar com o que está por vir,
por que você estava lá por mim.

Eu sinto falta da alegria que sentia
por saber que você pertencia a mim..
Dinheiroooo aonde você foi????

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos

Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo

Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo

Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...

É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta

E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.


Vinícius de Moraes

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Quando você não está por perto (Barão Vermelho)

Quando você não está por perto
(Barão Vermelho)

Eu quero ficar nu diante dos seus olhos
Falar bem perto do seu ouvido
Decifrar tua alma e os gemidos
Temos tempo pra viver


Quero descobrir o amor de novo
Encontrar em alguém o que eu procuro
Livrar o amor do escuro
E destruir o muro
Que cerca meu coração
Vai ser bom pra mim
Ficar só, é tão ruim
Vai ser bom pra mim
Ficar só, é tão ruim

A vida me sorriu, permitiu você nascer
Estrela pra dar sorte
Por tudo o que a gente fez
É pura tua luz, teu rosto, teu olhar

Quando voce está longe
A mim só resta lembrar
Quando você não está por perto
Meu mundo é um deserto no fim

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Não é nova, mas é sempre bom lembrar

Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
quando nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
amei e fui amado, mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
"quebrei a cara" muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só pra escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade e
tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo)!

Mas vivi!

E ainda Vivo!

Não passo pela vida...
E você também não deveria passar.

Viva!

"Bom mesmo é ir a luta com determinação,
abraçar a vida e viver com paixão,
perder com classe e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve e
a vida é MUITO para ser insignificante."

(Chaplin)


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Certezas (Mário Quintana)

Certezas

Não quero alguém que morra de amor por mim…
Só preciso de alguém que viva por mim,
que queira estar junto de mim,
me abraçando.


Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo,
quero apenas que me ame,
não me importando com que intensidade.


Não tenho a pretensão de que todas as
pessoas que gosto, gostem de mim…
Nem que eu faça a falta que elas me fazem,
o importante pra mim é saber que eu,
em algum momento, fui insubstituível…
E que esse momento será inesquecível..


Só quero que meu sentimento seja valorizado.

Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto,
mesmo quando a situação não for muito alegre…
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz
para os que estiverem ao meu redor.

Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém…
e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém
também pensa em mim quando fecha os olhos,
que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de
minhas renúncias e loucuras,
alguém me valoriza pelo que sou,
não pelo que tenho…

Que me veja como um ser humano completo,
que abusa demais dos bons sentimentos
que a vida lhe proporciona,
que dê valor ao que realmente importa,
que é meu sentimento…
E não brinque com ele.

E que esse alguém me peça para que eu nunca mude,
para que eu nunca cresça,
para que eu seja sempre eu mesmo.

Não quero brigar com o mundo,
mas se um dia isso acontecer,
quero ter forças suficientes para
mostrar a ele que o amor existe…

Que ele é superior ao ódio e ao rancor,
e que não existe vitória sem humildade e paz.

Quero poder acreditar que mesmo se hoje
eu fracassar, amanhã será outro dia,
e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos,
talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.

Que eu nunca deixe minha esperança ser
abalada por palavras pessimistas…
Que a esperança nunca me pareça um “não”
que a gente teima em maquiá-lo de verde
e entendê-lo como “sim”.

Quero poder ter a liberdade de dizer
o que sinto a uma pessoa, de poder
dizer a alguém o quanto ele é especial
e importante pra mim, sem ter
de me preocupar com terceiros…

Sem correr o risco de ferir uma ou
mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas
que nada foi em vão…

Que o amor existe,
que vale a pena se doar
às amizades e às pessoas,
que a vida é bela sim,
e que eu sempre dei o melhor de mim...

E que valeu a pena.

Mário Quintana

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Palco da Vida

 
Palco da Vida
(Fernando Pessoa)

Você pode ter defeitos,
viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não se esqueça de que
sua vida é a maior empresa do mundo.
E você pode evitar que ela vá à falência.

Há muitas pessoas que precisam,
admiram e torcem por você.
Gostaria que você sempre se lembrasse
de que ser feliz não é ter um céu sem tempestade,
caminhos sem acidentes,
trabalhos sem fadigas,
relacionamentos sem desilusões.

Ser feliz é encontrar força no perdão,
esperança nas batalhas,
segurança no palco do medo,
amor nos desencontros.

Ser feliz não é apenas valorizar o sorriso,
mas refletir sobre a tristeza.
Não é apenas comemorar o sucesso,
mas aprender lições nos fracassos.
Não é apenas ter júbilo nos aplausos,
mas encontrar alegria no anonimato.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver,
apesar de todos os desafios,
incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas
e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si,
mas ser capaz de encontrar um oásis
no recôndito da sua alma.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica,
mesmo que injusta.

Ser feliz é deixar viver a criança livre,
alegre e simples, que mora dentro de cada um de nós.

É ter maturidade para falar "eu errei".
É ter ousadia para dizer "me perdoe".
É ter sensibilidade para expressar "eu preciso de você”.
É ter capacidade de dizer "eu te amo".
É ter humildade da receptividade.

Desejo que a vida se torne um canteiro
de oportunidades para você ser feliz...

E, quando você errar o caminho,
recomece, pois assim você descobrirá que
ser feliz não é ter uma vida perfeita,
mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância.
Usar as perdas para refinar a paciência.
Usar as falhas para lapidar o prazer.
Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.

Jamais desista de si mesmo.
Jamais desista das pessoas que você ama.
Jamais desista de ser feliz,
pois a vida é um espetáculo imperdível,
ainda que se apresentem dezenas de fatores
a demonstrarem o contrário.

Pedras no caminho?
Guardo todas...
Um dia vou construir um castelo!